Anvisa autoriza uso de Mounjaro para tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes
Entenda como a aprovação do tratamento de diabetes pela Anvisa serve de base para discutir saúde e desigualdade na redação do Encceja.


A Anvisa aprovou, em 22 de abril de 2026, o uso do Mounjaro para o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. Até então, o medicamento era autorizado apenas para adultos no país.
A decisão marca um avanço em um cenário historicamente limitado: por décadas, o tratamento do diabetes tipo 2 em jovens contou com poucas alternativas. A metformina, principal opção oral disponível, apresenta falhas terapêuticas em cerca de metade dos casos. Nesse contexto, a tirzepatida surge como uma nova possibilidade, com resultados clínicos relevantes, embora ainda restrita ao mercado privado.
Entenda o que muda com essa aprovação e como o tema pode enriquecer seu repertório para a redação do Encceja.
O que é o diabetes tipo 2
O diabetes mellitus é uma doença crônica caracterizada pelo excesso de glicose (açúcar) no sangue, condição chamada de hiperglicemia. Existem dois tipos principais:
- Diabetes tipo 1: o sistema imunológico ataca as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. O organismo para de produzi-la completamente. É mais comum em crianças e jovens e exige reposição de insulina para o resto da vida.
- Diabetes tipo 2: o organismo produz insulina, mas não a utiliza de forma eficiente (fenômeno chamado de resistência à insulina). Com o tempo, o pâncreas também passa a produzir menos do hormônio. Está diretamente relacionado ao excesso de peso, sedentarismo e fatores genéticos.
Por muito tempo, o diabetes tipo 2 foi considerado uma doença de adultos. Isso mudou a partir da década de 1990, quando pesquisadores começaram a identificar um aumento expressivo de casos em crianças e adolescentes, especialmente associado ao crescimento da obesidade infantil.
No Brasil, 38% das crianças e adolescentes de 5 a 19 anos têm sobrepeso ou obesidade, segundo a Federação Mundial de Obesidade. Atualmente, cerca de 213 mil adolescentes brasileiros vivem com diabetes tipo 2, e o país figura entre as nações com maior número de pacientes pediátricos com a doença.
A descoberta da insulina (1921)
Antes de falar sobre os avanços recentes, é preciso entender o ponto de partida.
Antes de 1921, um diagnóstico de diabetes (especialmente do tipo 1) era praticamente uma sentença de morte. O tratamento disponível era uma dieta extremamente restrita em calorias, que podia ser tão debilitante quanto a própria doença. Pacientes com diabetes tipo 1 viviam, em média, apenas alguns meses após o diagnóstico.
A virada veio em 1921, na Universidade de Toronto, no Canadá. O cirurgião Frederick Banting e o estudante de medicina Charles Best, sob supervisão do professor John Macleod e com contribuição do bioquímico James Collip, conseguiram isolar um extrato pancreático e demonstrar que ele reduzia os níveis de glicose no sangue de cães diabéticos.


Em janeiro de 1922, o extrato purificado foi administrado em um ser humano pela primeira vez: Leonard Thompson, um adolescente de 14 anos internado em Toronto. Os resultados foram imediatos. A glicemia caiu de forma significativa e o paciente, que estava em estado crítico, se recuperou.
A descoberta foi reconhecida com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1923, concedido a Banting e Macleod.
O que mudou com a chegada da insulina
A insulina transformou o diabetes de uma doença fatal em uma doença crônica tratável. Seu impacto foi imediato e global: em poucos anos, farmacêuticas passaram a produzir insulina em escala industrial, inicialmente extraída de pâncreas bovinos e suínos.
No Brasil, o medicamento foi inicialmente importado. Décadas depois, passou a ser produzido localmente pela Biobrás Bioquímica do Brasil, empresa estabelecida na segunda metade do século XX. Atualmente, cerca de 7 milhões de brasileiros usam insulina diariamente.
Com o avanço da biotecnologia, a insulina recombinante humana foi desenvolvida na década de 1980. Produzida em laboratório a partir de DNA recombinante, eliminando as reações alérgicas associadas à insulina animal. Hoje existem diferentes tipos de insulina: de ação rápida, de ação intermediária e de ação prolongada, permitindo um controle mais preciso da glicemia ao longo do dia.
A metformina e a limitação das opções pediátricas
No tratamento do diabetes tipo 2, a insulina nem sempre é o primeiro recurso. Como o organismo ainda produz o hormônio (embora de forma ineficiente), o tratamento inicial costuma ser medicamentoso por via oral, com mudança de estilo de vida.
Por décadas, o único medicamento oral aprovado especificamente para crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 foi a metformina.
O que é a metformina
A metformina é um medicamento da classe das biguanidas, em uso clínico desde a década de 1950 e aprovado para uso pediátrico nos Estados Unidos no ano 2000. Seu mecanismo de ação é diferente da insulina: em vez de repor o hormônio, a metformina reduz a produção de glicose pelo fígado e melhora a sensibilidade das células à insulina que o organismo já produz.
Suas vantagens em relação a outros medicamentos orais são relevantes: não causa hipoglicemia (queda excessiva de glicose), contribui para a manutenção ou redução do peso e tem um perfil de segurança bem estabelecido. Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais (náuseas e dor abdominal), que tendem a diminuir com o tempo.
O problema da metformina como único recurso
Apesar de ser o medicamento de primeira escolha, a metformina tem uma limitação importante: ela não funciona adequadamente em todos os pacientes. Estudos clínicos mostraram que a monoterapia com metformina falha em aproximadamente metade dos adolescentes com diabetes tipo 2, ou seja, metade dos jovens tratados só com esse medicamento não consegue controlar adequadamente os níveis de glicose.
Quando isso ocorre, a alternativa era recorrer à insulina, o que, para adolescentes, representa uma mudança significativa na rotina, com aplicações diárias e risco de hipoglicemia.
Essa lacuna terapêutica, entre a metformina como único oral disponível e a insulina como próximo passo, era o principal problema do tratamento pediátrico do diabetes tipo 2 até recentemente.
Os avanços da última década: GLP-1 e a nova geração de medicamentos
A situação começou a mudar com o desenvolvimento dos agonistas do receptor GLP-1, uma nova classe de medicamentos que atua de forma diferente da metformina e da insulina.
O GLP-1 é um hormônio naturalmente produzido pelo intestino após as refeições. Ele estimula o pâncreas a liberar insulina, reduz o apetite e desacelera o esvaziamento gástrico: o que resulta em melhor controle da glicemia e, frequentemente, em perda de peso.
Em 2019, a liraglutida (comercializada como Victoza) foi aprovada pelo FDA (agência regulatória americana) para crianças a partir de 10 anos com diabetes tipo 2, ou seja, o primeiro medicamento não insulina, além da metformina, aprovado para uso pediátrico em duas décadas. Representou um avanço significativo, mas ainda com eficácia limitada para parte dos pacientes.
O mounjaro: o que é e por que a aprovação é um marco


O Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, medicamento desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly. Ele pertence a uma classe ainda mais nova: os agonistas duplos dos receptores GIP/GLP-1.
Enquanto os medicamentos GLP-1 anteriores atuam em um único receptor, a tirzepatida age em dois simultaneamente: o receptor do GLP-1 e o receptor do GIP, outro hormônio intestinal envolvido no controle da glicemia. Essa ação dupla resulta em maior eficácia tanto no controle da glicose quanto na redução de peso.
O estudo que embasou a aprovação
A Anvisa aprovou o Mounjaro para uso pediátrico com base nos resultados de fase 3 do estudo clínico internacional SURPASS-PEDS. Os dados são expressivos:
- Remissão glicêmica em até 4 de cada 5 pacientes: o que significa que a maioria dos participantes atingiu níveis de glicose dentro da faixa considerada normal;
- Redução superior a 2 pontos percentuais na hemoglobina glicada (HbA1c): indicador central do controle do diabetes a longo prazo;
- Queda de até 12% no IMC (Índice de Massa Corporal): relevante porque a obesidade é tanto causa quanto complicador do diabetes tipo 2 em jovens.
Por que a aprovação é relevante
Crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 enfrentam uma doença de progressão mais veloz do que em adultos, e as opções disponíveis até hoje frequentemente apresentavam limitações para controlar adequadamente os níveis glicêmicos.
A aprovação do Mounjaro para a faixa pediátrica é o primeiro medicamento desse grupo a ser liberado para menores de 18 anos no Brasil. Ela amplia significativamente as opções disponíveis para médicos e pacientes, especialmente para os casos em que a metformina não é suficiente e a insulina seria o próximo passo.
Vale registrar que, em janeiro de 2026, dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) mostraram que 1.240 caixas de Mounjaro já haviam sido vendidas para menores de 18 anos, fora da indicação oficial aprovada até então. A aprovação da Anvisa regulariza e orienta esse uso, garantindo que ele seja feito com respaldo científico e acompanhamento médico adequado.
O acesso ao sistema de saúde
Um aspecto central nessa discussão (e especialmente relevante para o Encceja) é a questão do acesso.
O Mounjaro é um medicamento de alto custo, disponível apenas no mercado privado. Sua incorporação ao SUS (Sistema Único de Saúde) ainda não foi aprovada, o que significa que, na prática, o benefício da aprovação da Anvisa está, por ora, restrito a pacientes com condições financeiras de arcar com o tratamento.
Isso coloca a aprovação em um contexto maior: avanços científicos na medicina não se traduzem automaticamente em avanços na saúde pública, especialmente em países com grande desigualdade social.
Por que esse tema é útil como repertório
Esse conteúdo pode aparecer na prova do Encceja em três frentes distintas:
Em Ciências da Natureza: o diabetes é conteúdo direto de biologia: função do pâncreas, papel da insulina, glicemia, sistema endócrino, obesidade e seus impactos metabólicos. A linha do tempo dos avanços científicos também conecta o tema à história da biotecnologia e à produção de medicamentos.
Em Ciências Humanas: o debate sobre acesso ao tratamento articula saúde pública, desigualdade social e papel do Estado. O SUS, as políticas de incorporação de medicamentos e a diferença entre aprovação regulatória e acesso real são conteúdos de cidadania e políticas públicas que podem ser cobrados nessa área.
Na Redação: saúde pública, obesidade infantil, desigualdade no acesso a tratamentos e papel do Estado na garantia do direito à saúde são temas recorrentes. A história do diabetes (de doença fatal no século XIX a condição tratável com remissão possível em 2026) é um argumento histórico consistente sobre o impacto do avanço científico na qualidade de vida.
Exercício de aplicação
Escreva um parágrafo de desenvolvimento para um dos temas abaixo, usando pelo menos um dado ou argumento histórico deste artigo. Aplique a estrutura: contextualização → argumento → dado concreto → conexão com o tema.
- “Os desafios do acesso à saúde pública no Brasil”
- “O papel do avanço científico na melhoria da qualidade de vida”
- “Desigualdade social e direito à saúde no Brasil contemporâneo”
- “A obesidade como problema de saúde pública”
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